Retirando da lama alimenta para alma.

domingo, 12 de julho de 2009

Salvos da perfeição

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.


Autor: Elienai Cabral Jr.
Fonte : http://elienaijr.wordpress.com/

sexta-feira, 12 de junho de 2009

AFETOS

Não sei se vocês já perceberam que as pessoas acham muito mais fácil exprimir seus ódios e raivas que seus gostares e afetos.

Já me perguntei várias vezes sobre as razões deste aleijão absurdo, e a única explicação que me vem à cabeça é que, ao fazer explodir seus ódios e raivas, as pessoas se sentem como tigres, temíveis e fortes animais de caça. Enquanto que, ao mostrar o seu gostar, elas se sentem como aves indefesas, tolas e ridículas, prisioneiras na arapuca do outro.

E para não se sentirem presas, preferem deixar preso o gostar, no silêncio...

Autor: Rubem Alves

Fonte: http://www.deliriosdaalma.blogspot.com

sábado, 6 de junho de 2009

Como é estranho!

Como é estranho perceber que o tempo voou mais rápido do que os pensamentos e produziu mais estragos do que a imaginação. Contemplei minha fotografia e mal reconheci o velho que perambulava na imagem morta.

 

Como é estranho sentir saudade sem saber bem do quê; inquieto-me com o presente a rodopiar feito um tornado, precipitando a vida rumo ao momento derradeiro, quando todas as saudades se tornarão verdadeiras.

 

Como é estranho olhar ao redor e saber que tenho tão poucos amigos. Antigamente, esperava em cada encontro uma promessa de amizade, em cada aperto de mão uma fidelidade, em cada sorriso uma aliança. Hoje convivo com a tristeza de saber que todos partirão um dia.

 

Como é estranho notar a idade transformando os antigos fascínios em descaso; encantos que seduziam como sereias, já nem me ocupam. Afasto-me deles como uma raposa de costas para as uvas.

 

Como é estranho começar a gostar de poesia tardiamente. Já acreditei que os melhores livros de uma livraria ficavam na prateleira da “não-ficção”. Passei ao largo do Vinícius de Moraes, um promíscuo; evitei Machado de Assis, que só escrevia bobagens; e sequer conheci Fernando Pessoa, um possível pederasta. Depois que me decepcionei com pensadores ortodoxos, porém implacáveis, belicosos e intransigentes, acordei. Hoje sei que Deus é poeta e todos os que fazem poesia estão no coração de Deus.

 

Como é estranho ver as certezas ruírem; eu que já defendi minhas convicções como um Mosqueteiro medieval; que fui inquisidor; que já pedi cabeças na guilhotina e aticei fogueiras para arder hereges. Tantas convicções se esfarinharam diante da dureza do sofrimento humano que, hoje, meu único dogma é o amor. Minha única sede é me humanizar e meu único alvo, não perder a alma.

 

Como é estranho, de repente, ver a vida com estranheza. Venho me tornando um homem muito esquisito em um mundo que já se acostumou a não achar nada muito estranho.

 

 

 

Autor : Ricardo Gondim

 

Fonte : http://www.ricardogondim.com.br/ 

sexta-feira, 20 de março de 2009

Deus criou o mal ?

Como um Deus perfeito pode criar “o mal”? (Is 45:7)

Por Alberto R. Timm

O profeta Isaías exerceu seu ministério profético num período em que a religião de Israel estava sendo contaminada por influências idólatras e politeístas das nações circunvizinhas.

 Nos capítulos 40 a 48 do livro de Isaías, o Senhor reivindica sua exclusiva soberania universal, como Criador, Mantenedor e Salvador, em contraste com a impotência dos falsos deuses pagãos. Em Isaías 45:5-7, Deus diz: “Eu sou o Senhor, e não há outro; além de Mim não há Deus; Eu te cingirei, ainda que não me conheces. Para que se saiba, até ao nascente do sol e até ao poente, que além de Mim não há outro; Eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; Eu, o Senhor, faço todas estas coisas.”

A palavra “mal” (hebraico ‘ra‘) aparece no verso 7 em direto contraste com o termo “paz” (hebraico shalom), e refere-se, aqui, não à natureza moral interior de uma pessoa, e sim a calamidades exteriores. Deus jamais poderia “criar” o pecado sem com isso comprometer Seu caráter justo e santo. Mas Ele pode permitir que calamidades exteriores sobrevenham a uma pessoa ou nação para discipliná-las com propósitos redentivos (ver Ap 3:19) ou mesmo punitivos (ver Ap 21:8).

No Antigo Testamento encontramos várias ocasiões em que Deus permitiu que nações pagãs, como Assíria e Babilônia, punissem a apostasia de Seu próprio povo (ver Dt 11:8-32; 28:1-68).

Valendo-se de um idiomatismo característico da mentalidade semítica, os profetas bíblicos retrataram muitas vezes a Deus como causando as calamidades que Ele apenas permitia que ocorressem. Esse idiomatismo é usado também em Isaías 45:7, onde é enfatizado que Deus controla “todos os acontecimentos, os bons e os maus” (A Bíblia Viva), criando o bem e permitindo que desgraças sobrevenham ao Seu povo, quando outros recursos não forem suficientes para afastá-los dos maus caminhos.

 

 

 

Autor : Alberto R. Timm

Fonte : http://www.centrowhite.org.br/textos.pdf/01/13.pdf

domingo, 15 de março de 2009

A ORTODOXIA É O MUNDO DOS MORTOS

O ortodoxo tenta preservar o velho. O herege tenta destruir o velho, para que o novo nasça. O ortodoxo tem medo do novo, da surpresa, do inesperado. Eles ameaçam a sua salvação. O herege vê o velho apenas como um caminho na direção do novo. O velho não é definitivo. É o provisório. Etapa a ser ultrapassada. Visões de mundos que se opõem. O ortodoxo vê um mundo petrificado, acabado, completo, fixo, imutável. O herege vive num mundo que se move, ainda incompleto, aberto, inacabado. Mundo onde é necessário buscar. Processo descontínuo, de saltos qualitativos, onde a vida e a liberdade se mantêm pela dialética da morte e da ressurreição. Quem preserva o passado está condenado a viver nele. Perdeu o futuro. O mundo da ortodoxia é aquele que foi um dia criado por homens então vivos. Mas eles morreram. Recebemos suas idéias como um herança, monumentos de um momento vivo que agora não mais existe. A ortodoxia afirma a eternidade deste mundo morto. Usa-o como uma jaula onde a vida deve ser encerrada. (Rubem Alves, Religião e Repressão, pág. 326.)

Autor : Rubem Alves

Fonte : http://elienaijr.wordpress.com/

domingo, 8 de março de 2009

Ópio do povo?

A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condicões desalmadas. É o ópio do povo.(Karl Marx, "Uma Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel" (1844)

Acreditar na Bíblia requer coragem. Não é para os fracos de coração. Sua visão do universo em nada é reconfortante. Podemos ser livres, podemos ser afluentes, mas em Pêssach comemos o pão da aflição e sentimos o gosto amargo das ervas da escravidão. Em Sucot, nós nos sentamos em barracos e aprendemos o que é não ter um lar. No Shabat, vivemos na prática nosso protesto contra uma sociedade movida pela produção e consumo incessantes. Todos os dias, falamos em nossas preces de Deus “que proporciona justiça aos oprimidos, e dá alimento aos famintos… liberta os agrilhoados… abre os olhos dos cegos e reergue os caídos… protege os peregrinos; ao órfão e à viúva Ele reanima…” (Salmos 146:7-9). Imitar Deus é estar alerta à pobreza, ao sofrimento e à solidão do próximo. O ópio elimina a sensibilidade à dor. A Bíblia nos faz senti-la.

É impossível se comover com os profetas e não ter consciência social. A mensagem que transmitem em nome de Deus é uma: O mundo não vai melhorar sozinho. E não se tornará um lugar mais humano se delegarmos a outros - políticos, articulistas, apologistas profissionais - a tarefa nossa de trazer a redenção. A Bíblia hebraica não começa com o apelo do homem a Deus, mas com Deus nos chamando, a cada um de nós, exatamente aqui onde estamos. “Porque, se de todo te calares agora”, diz Mordechai a Ester, “de outra parte se levantarão para os judeus socorro e livramento… quem sabe se não foi para este momento que chegaste ao reinado?” (Ester 4.14) Esta é a pergunta que Deus nos faz. A resposta é sim. Se não fizermos o que nos cabe, talves outros façam. Mas não teremos, então, compreendido por que estamos aqui e o que somos intimados a fazer. A Bíblia é o chamado de Deus à responsabilidade humana.

Autor : Rabino Jonathan Sacks

Fonte : Trechos do livro Para Curar um Mundo Fraturado - A ética da responsabilidade(Rabino Jonathan Sacks)

O deus que não é Deus – Ricardo Gondim

Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Essse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana.  Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.

Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.

Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.

Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.

Soli Deo Gloria.

 

Fonte : http://www.ricardogondim.com.br/

Autor : Ricardo Gondim